Por André Medici
Arnaldo Jabor – Amor é prosa; sexo é poesia: crônicas afetivas
Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2004
Arnaldo Jabor é um carioca universal. Sua biblioteca de memórias repousa no Rio de Janeiro, no cotidiano da classe média do Meier, Copacabana e Ipanema, na beleza plástica, ainda vigente, e na aura de tranqüilidade da cidade de outrora, nos personagens de sua infância e juventude e nas desilusões trazidas pela ditadura militar, nos problemas vividos após o retorno da democracia e na violência crescente das duas últimas décadas.
Sua universalidade se expressa na perplexidade em torno à crise de expectativas da história recente que, diferentemente do preconizado por Fukuyama, não chegou ao fim, mas iniciou-se com uma nova etapa marcada por contradições inesperadas, como os conflitos de base étnica e religiosa e a fragmentação social excludente trazida pela globalização e pelo culto ao consumismo exacerbado, criando problemas sem aparentes soluções racionais, potencializados pelo crescimento do cinismo e da falta de compromisso dos dirigentes na busca incessante pelo poder. Sua indignação invasiva é revestida por um sentimento de mundo, como diria Carlos Drummond de Andrade, que fica patente em várias das peças que compõe o mosaico do livro.
Os impactos desta realidade em países em desenvolvimento, como o Brasil, são mais que contundentes. Por estes fatores globais e pela nossa própria incompetência, as últimas duas décadas foram perdidas. Nossos indicadores econômicos e sociais cada vez se distanciam mais daqueles dos países desenvolvidos e dos novos países em desenvolvimento que ultrapassaram o Brasil em crescimento, justiça e igualdade. Nas palavras do autor, ser subdesenvolvido não é não ter futuro ma sim nunca estar no presente.
Como se encaixa o amor e o sexo nesta estória? O culto à aparência, a decadência do trabalho, a perda do sentimento de compaixão, a banalização do crime e da violência, a transcodificação dos valores (de quem se é para o que se tem) e a coisificação das relações sociais são ingredientes associados a comercialização do amor e a pausteurização do sexo.
A revolução sexual dos anos sessenta representou um grande avanço na igualdade entre os gêneros, na liberação da mulher e nos direitos civis, mas misturada com outros ingredientes da sociedade de consumo, especialmente nos países em desenvolvimento, trouxe também muitas conseqüências. A liberação da mulher numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro.
A publicidade devastou o amor, virando este um objeto de consumo, marcado por utilidade e desempenho. E por isso é cada vez mais efêmero. Como no título da obra de Mário de Andrade, Amar, verbo intransitivo, é necessário voltar a praticar o culto de amar, porque quem ama não depende de objeto direto ou indireto. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos.
Com esse incorrigível romantismo, a crônica que dá nome ao livro – amor é prosa, sexo é poesia – foi escolhida como tema de uma das músicas de um recente CD de Rita Lee e Roberto de Carvalho. O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também, do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. Mas apesar das assinaladas diferenças, o autor conclui que sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte, e daí a essencialidade do último verso da música de Rita Lee: o amor é tudo...sexo também.
Como um livro de crônicas, não foi feito para cumprir uma unidade seqüencial. Parece mais um mosaico com múltiplas opções de desenhos, onde as partes se complementam segundo a forma final escolhida pelo leitor após encaixar as peças no tabuleiro. Por isso, aborda temas que vão muito além dos aqui mencionados. A complexidade de questões como os amores de ontem e de hoje, os dilemas do celibato e seus efeitos na prática do catolicismo, a política externa norte-americana e o Brasil, a complexa teia de relações oriente-ocidente após 11 de setembro, a intimidade revelada das relações familiares e o ceticismo sobre o futuro, além de outros, são temas abordados de forma fácil, divertida e irreverente. É um livro que dá muito prazer ao leitor, mesmo para aqueles que não acompanham a prosa despretenciosa mas profunda de Arnaldo Jabor na imprensa. Li o livro em dois dias e me deu muito prazer. Espero que vocês possam sentir o mesmo.